Uma onda de demissões está acontecendo nas empresas de TI em Minas Gerais neste começo de abril. Vários trabalhadores são mandados embora de uma vez só, inclusive em empresas que até pouco tempo atrás ostentavam resultados positivos para o mercado e seus funcionários. Algumas destas empresas inclusive divulgam planilhas com os nomes e cargos dos trabalhadores demitidos como forma de supostamente ajudá-los a se recolocar no mercado. Rendemos toda nossa solidariedade e fraternidade a estes trabalhadores e trabalhadoras sacrificados pelos lucros de seus patrões!

O sonho do San Pedro Valley, como era chamado o "Vale do Silício Mineiro" porseus apologistas, acabou. É importante entender o real motivo das demissões, queacontecem por duas razões essenciais. A primeira e mais óbvia é que a atividadeeconômica de algumas destas empresas estagnou, embora sejam minoria dos casos -várias delas tinham plenas condições de segurar os empregos por alguns meses, deacordo com a imagem de prosperidade que elas próprias exibiam publicamente.

O segundo motivo, provavelmente o mais importante, é o que deve estar por trás da maioria dos casos. Estes supostos bons resultados maquiam um modelo de negócios insustentável, que depende de sucessivas rodadas de investimento que não se concretizarão mais. Os escorregadores, piscinas de bolinhas, rodadas de chope no expediente, quadros coloridos e videogames liberados para números cada vez maiores de trabalhadores contratados em massa foram necessários para passar uma imagem de sucesso e crescimento para o mercado e para os investidores, e não por conta de um aquecimento econômico local ou global. Incapazes de entregar o máximo de lucro e exploração com o mínimo de custos, estas empresas vivem de títulos podres com a esperança de um dia se tornarem rentáveis.

Para os que ficam, resta um aumento na carga de trabalho para compensar a redução dos quadros de funcionários, com jornadas exaustivas, horas extras não remuneradas, desvios de função, cortes de direitos e cobrança de especializações cada vez mais significativas sem a devida compensação. A constante cobrança por atualizações do profissional se intensifica, e a ameaça do desemprego é usada para exigir que o trabalhador seja o especialista de tudo com salário de iniciante. Forma-se uma legião de trabalhadores super-qualificados competindo por vagas de emprego cada vez mais escassas!

É necessário um novo olhar da categoria em uma perspectiva totalmente diferente do discurso que nos era vendido até então. Não somos "empreendedores", não vivemos dos nossos sonhos e nem chegaremos ao topo com nosso esforço individual. Os velhos chavões liberais que tanto fizeram sucesso caem por terra e a realidade bate à porta dos nossos colegas: somos todos trabalhadores, uma classe orgânica e capaz de dar sua contribuição na construção de uma nova sociedade, mais justa e fraterna.

Há algumas semanas nosso Comitê publicou uma nota política na defesa do emprego, das políticas de quarentena e das possibilidades de trabalho remoto na nossa categoria. Estamos à disposição dos trabalhadores, como afirmamos neste comunicado, em meio a esta onda de demissões. O sindicato dos trabalhadores de TI, o Sindados, pode ser acionado diretamente ou através do nosso Comitê. Independentemente se você está desempregado ou não, a categoria está convidada a conhecer nosso Comitê de Base, conversar sobre este momento complicado e edificar um futuro melhor. É hora de quebrar os grilhões que nos prendem e construir uma nova ordem onde os trabalhadores tenham voz e poder.