Os casos de covid-19 no Brasil seguem aumentando. A visibilidade do espalhamento da doença é potencializada pelas redes sociais e pelo WhatsApp, onde todos os dias sabemos de algum caso novo e cada vez mais próximo de nós. Apesar da negação criminosa e genocida por parte do presidente da República, os governadores e prefeitos de vários lugares do país adotaram políticas de quarentena, isolamento e afastamento dos cidadãos, tendo em vista a diminuição da circulação de pessoas e consequente diminuição do contágio. Não fossem estas medidas, provavelmente estaríamos em situação ainda pior – como é o caso da Itália, Nova Iorque, Equador e Espanha, onde os serviços funerários já não conseguem mais atender a tantas mortes e os corpos se empilham nas ruas.

O terceiro setor, composto pelo comércio e pela prestação de serviços, responde por uma importante parte da economia das cidades do Brasil, desde pequenos povoados até grandes metrópoles, e depende diretamente da circulação de pessoas e do consumo das famílias. A crise que já dura cinco anos colocou vários destes pequenos patrões em apuros, que apoiaram diversos ataques à renda dos trabalhadores acreditando que tais cortes fariam suas taxas de lucro voltar a subir. As quarentenas pelo país todo acertaram em cheio a este ambiente econômico já bastante fragilizado, representando uma queda abrupta nas receitas destes pequenos comerciantes e donos de negócios de portes mais modestos.

Estes patrões, pequenos que se acham grandes, organizam nas cidades carreatas com seus luxuosos SUVs, off-roads, esportivos e afins que valem centenas de milhares de reais. Suas reivindicações se resumem a duas palavras repetidas à exaustão: “queremos trabalhar”. Esta frase simples esconde uma perversa ideia, reforçando a noção de que seriam os donos das empresas que fazem a economia girar e o país funcionar. Apesar de referirem a si próprios, sua exigência na verdade diz respeito aos seus empregados – “queremos trabalhar” na verdade é “queremos que nossos funcionários trabalhem!”

Tal palavra de ordem só ocorre por conta da mesma ideologia liberal que os faz acreditar que são grandes empresários e os leva a defender que o Estado não deva interferir na economia. O governo que muitos deles ajudaram a eleger agora os abandona à própria sorte, como prometido e desejado por eles mesmos. Em vez de cobrar medidas de emergência do poder público, exigem que o país funcione em uma normalidade que não existe mais. Não conseguem sequer pensar em exigir uma nova linha de crédito para pequenas e médias empresas via BNDES, ou que o Estado deva assumir empresas privadas em situação falimentar para a garantia dos empregos – ironicamente são os comunistas, tão demonizados por eles, quem defendem estas pautas. Estão tão embriagados ideologicamente que defendem apenas falsas soluções que acabam por afundar ainda mais o buraco no qual eles seguem se enfiando desde a “Ponte Para o Futuro” de Michel Temer.

Os verdadeiros grandes empresários, que financiam e mandam no governo, pressionam para que o poder público siga sem atuar na defesa destes pequenos negócios, enquanto pedem que a corja de Paulo Guedes, Mansuetto e Roberto Campos façam o Brasil assumir as dívidas e papéis podres dos monopólios e bancos. Eles tem muito a ganhar com a quebra generalizada do país, se apoderando dos destroços do Brasil após a pandemia. Para estes magnatas, a burguesia brasileira e estrangeira que explora em proporções imensas, a crise é a oportunidade de lucrar como nunca. O endividamento dos Estados por todo o mundo e a destruição dos produtores locais ajuda a consolidar suas posições monopolistas, varrendo os concorrentes através das leis do livre mercado que eles defendem tão ferrenhamente.

Com isso resta aos empresários locais tentar obrigar seus funcionários a trabalhar como se nada estivesse acontecendo, na esperança de que suas lojinhas – sejam as de bairro, sejam as que plagiam tudo o que há de mais brega na imagem estadunidense – não entrem para as estatísticas de falências. O empregador se desespera com a possibilidade de ter que virar um empregado, pois sabe que as políticas que ele sempre defendeu e vê sendo aplicadas são totalmente prejudiciais aos trabalhadores. O dono da empresa compreende muito bem a realidade da luta de classes, e vai defender sua posição ferrenhamente pois é sua própria sobrevivência que está em jogo – e ele sabe que ela depende diretamente de nos expor à doença e à morte. Nós trabalhadores somos ameaçados com o desemprego, em uma campanha de alarmismo que faz com que a classe trabalhadora seja forçada – com o aval do governo – a escolher entre morrer de fome ou de vírus.

Esta é uma contradição que é natural do liberalismo. Uma economia de mercado não consegue congelar sua produção e circulação de riqueza sem desencadear uma crise gigantesca, onde os burgueses menores são engolidos pelos maiores e se tornam trabalhadores sujeitos aos mesmos riscos e dificuldades que seus antigos empregados. Os governos dos países capitalistas demoram a agir pois isso é um golpe de morte nos negócios – ou seja, a saúde das pessoas vale menos do que a saúde financeira. Enquanto isso, economias públicas e planificadas como a da China já voltam a funcionar após um período de trancamento total de importantes centros industriais – a própria cidade de Wuhan, primeiro foco da pandemia, é conhecida por seu parque de fábricas de alta tecnologia, volta à ativa com poucos impactos nos empregos e relativo retorno à normalidade do dia a dia. Países próximos, como a Coreia Popular e o Vietnã, seguem com poucos casos e nenhuma morte até o momento. No outro lado do mundo, Cuba também se mantém com a situação razoavelmente controlada. A Venezuela – que apesar de ser uma economia de mercado segue com forte interferência estatal – faz um esforço heroico em meio a uma intensificação dos embargos criminosos dos EUA à importação de todo tipo de recurso básico, enquanto seus vizinhos colombianos presenciam uma disseminação acelerada da doença.

É em momentos de crise como este que mitos caem por terra e os messias do liberalismo tem seu discurso esfaqueado pela realidade. O socialismo e a planificação econômica, que foram acusados nos últimos trinta anos de serem ineficientes e pouco dinâmicos, de não funcionarem na realidade e de gerarem estagnação, respondem de forma muito mais eficaz à crise de saúde mundial que se coloca diante de nós. O exemplo chinês deve ser aprendido com atenção pelo resto do mundo neste momento – o país criou todo o protocolo de isolamento que agora é a referência no controle do espalhamento da doença e só conseguiu colocá-lo em prática por não precisar se preocupar com os negócios acima das pessoas. É preciso que nós criemos no Brasil estas mesmas condições, com uma nova economia e uma nova democracia que prioriza os trabalhadores e não os patrões.