O histórico retrocesso da economia, referendado pelos números oficiais, é usado pelos patrões das empresas de TI para barrar qualquer reajuste e ainda avançar na retirada de direitos como a PLR. O cenário geral da economia brasileira, porém, não se aplica à realidade da nossa categoria. Setores de e-commerce e entretenimento registram picos inéditos, cursos online dos mais variados tipos passaram a ser muito mais procurados, e várias outras mudanças nos hábitos de trabalho e consumo dos brasileiros impulsionaram o crescimento acelerado do mercado de TI, que fecha contratos cada vez mais vultuosos e contrata num ritmo ainda maior do que o normal. O próprio sindicato patronal admite que suas empresas representadas se destacam.

Nas comunicações internas, sabemos que a situação é ainda mais tranquila do que a parte que vai para a mídia. Os executivos e diretores ostentam com orgulho resultados positivos e sucessivos recordes históricos. Desde multinacionais estrangeiras com times aqui até empresas nascidas do infame San Pedro Valley, não é difícil encontrar lugares em que todos os meses tem sido o melhor da história da companhia. Os novos hábitos de consumo dos clientes, os investimentos feitos por contratantes gigantescos e os drásticos cortes de custos de infraestrutura ajudaram muitas empresas a atingirem suas metas anuais antes do fim do primeiro semestre.

Os valores dos novos contratos, apesar de confidenciais para boa parte dos funcionários, certamente são significativos. Grandes empresas aproveitam para investir seu capital em reformas nas suas estruturas de TI, em vastas redes de logística privada, em aprimoramento dos processos produtivos com menor intervenção humana, fortalecendo sua posição no mercado e ganhando terreno contra concorrentes menores que chegaram a este momento com menor poder financeiro. As consultorias, fábricas de software, prestadoras de infra e afins podem escolher com quem fazer negócio, tamanha a demanda surgida.

Varejistas online dos mais diversos tipos também estão sorrindo. Empresas de marketplace se firmam como os novos supermercados, atuando como grandes galerias onde pequenos negócios pagam taxas abusivas para ter um pouco de visibilidade. Esse modelo já vinha se fortalecendo nos últimos anos e está definitivamente consolidado agora, pois fora destas plataformas os negócios que lutam para sobreviver simplesmente desaparecem do grande público. Jeff Bezos enriquece alguns bilhões a cada dia com sua Amazon, entregadores e restaurantes são esmagados pelo oligopólio do delivery (Rappi, iFood, Uber Eats), plataformas de cursos online recebem uma enxurrada de novos produtores de conteúdo e clientes buscando se capacitar para protegerem seus empregos, etc.

Os trabalhadores do setor são retribuídos com jornadas extenuantes, poder de compra corroído pela inflação que voltou com tudo e ameaças constantes de demissão. Os resultados positivos nos balancetes, muitas vezes sem precedentes na história das empresas, certamente são empurrados também pelos cortes de pessoal, aumento forçado da produtividade com horas extras não remuneradas, etc. O novo normal da categoria é aquele em que quem não responder no Teams no sábado à noite pode procurar outro emprego.

Diante do cenário onde as empresas de TI são um oásis de lucros exorbitantes em meio à ruína do país, os empresários não têm o direito de usar a crise para justificar sua ganância. Não apenas há dinheiro em caixa para manter os direitos já garantidos na última CCT, há também para um reajuste acima da inflação oficial. O aumento de 5% ainda é ínfimo perto dos rios de dinheiro que estão entrando nas empresas e nos bolsos dos patrões! Aos patrões avanço e aos trabalhadores retrocesso? Crise pra quem?!