Já ouviu falar em “crunch time”? Talvez você não conheça dessa forma, mas certamente já ouviu coisas como:

  • “Galera, vamos dar aquele gás final!”
  • “Precisamos manter o foco nesse momento…”
  • “São tempos de crise!”

Geralmente estas frases, sozinhas, não são problema. Mas quase sempre elas vem acompanhadas daqueles desagradáveis pedidos: horas extras, expediente no fim de semana e feriados, e outras formas de jornadas abusivas. E muitas vezes não remuneradas…

Tal comportamento nocivo foi tido como um hábito e naturalizado no ambiente da Tecnologia da Informação. E isso precisa ser desfeito.

Dentro do setor, uma área parece ser especialmente afetada: o desenvolvimento de software. E, indo mais a fundo, o desenvolvimento de jogos em específico vivencia com mais intensidade. Há várias razões para isso, que vão de prazos rígidos – e muitas vezes irreais – colocados no mercado e até uma noção de que seria uma atividade mais leve por envolver videogames – deixando de lado que continua sendo trabalho.

Os desenvolvedores se submetem então a péssimas condições de trabalho, se extenuando física e mentalmente pela pressão e pela falta de descanso, com uma balança desequilibrada entre vida pessoal e profissional onde o trabalho parece ter todo o peso. E eventualmente o crunch time deixa de ser exceção e se torna regra, constituindo um problema crônico da profissão, sendo a normalidade do desenvolvimento de jogos.

Casos famosos

Em 2004 a esposa de um dos desenvolvedores da Electronic Arts escreveu uma carta manifesto denunciando as condições de trabalho deploráveis que eram impostas. A publicação ganhou grande repercussão, originando um processo conjunto contra a EA. A empresa perdeu e foi obrigada a indenizar diversos trabalhadores.

Dezesseis anos depois da “EA Spouse” pouca coisa parece ter mudado, infelizmente.

Outra conhecida companhia, a Rockstar, foi citada em um comunicado semelhante ainda em 2010. A denúncia não impactou o estúdio, que para o lançamento de Red Dead Redemption 2 – no ano de 2018 – submeteu seus trabalhadores a jornadas de 100 horas semanais de trabalho várias vezes, fato noticiado como motivo de orgulho por um figurão da empresa.

Ainda em 2018, denúncias semelhantes vieram também de dentro da Telltale Games. Em setembro daquele ano, a empresa fechou as portas repentinamente e demitiu seus funcionários do dia para a noite sem nenhuma compensação após submeter seus desenvolvedores a jornadas igualmente desumanas. A empresa faliu por conta de uma péssima gestão, onde mesmo seus grandes sucessos não se traduziam em lucros e ainda esgotavam a saúde física e mental dos trabalhadores devido ao ritmo incessante de trabalho.

O que fazer?

Fica claro para quem trabalha com Tecnologia da Informação – não apenas no desenvolvimento de jogos, mas em praticamente todos os setores – que o cenário descrito acima é bastante familiar inclusive aqui no Brasil. Em empresas de todos os portes, das startups às grandes consultorias, é cada vez mais comum a prática do crunch time.

Para sustentar tamanha exploração, os patrões precisam recorrer a artimanhas ideológicas já bastante conhecidas da área de Tecnologia da Informação. Instigam nos trabalhadores um chamado “sentimento de dono”, tentando diminuir a separação emocional entre o trabalhador e o produto de seu trabalho – ou seja, busca contornar o aspecto psicológico da alienação do trabalho no capitalismo. Apesar disso, para a empresa os desenvolvedores continuam sendo apenas recursos, números, insumos e custos para a produção das mercadorias a serem postas à venda. A valorização que o trabalhador espera ter pelo seu esforço a mais quase nunca se traduz em ganhos reais – o crunch time passa a ser a normalidade da profissão.

A saída para isso não é simples, pois a causa está na raiz da forma como a sociedade capitalista funciona. É preciso que a categoria se organize coletivamente para reivindicar condições de trabalho saudáveis e realistas, através de coletivos e dos sindicatos. A situação nos EUA chegou a um ponto tão alarmante que os trabalhadores estão vivendo uma nova onda de sindicalização após décadas longe da organização coletiva. Esta nova onda já está gerando um impacto nas empresas, que precisam ceder aos seus desenvolvedores mobilizados ou iniciar perseguições sindicais que só fazem aumentar a insatisfação e a organização da categoria. Precisamos repetir no Brasil esta forte mobilização coletiva da nossa categoria antes que seja tarde demais!