Um mês atrás foi realizada a primeira assembleia dos trabalhadores de TI para a campanha salarial 2019 do Sindados. Com uma discussão ampla e boa participação da categoria, foi aprovada uma pauta de reivindicações que incluiu um robusto reajuste de 15% nos salários, benefícios, etc, além de pleitear uma série de novos direitos.

Nas semanas que antecederam a assembleia, o clima era de tensão com os sinais dados por representantes das empresas – fosse pelo site do sindicato patronal, na imprensa ou em conversas de corredor. O cenário que se desenhava era justamente o oposto do que foi reivindicado, com reajuste zero e corte de todos os benefícios ao mínimo exigido por lei. Ou seja, os trabalhadores corriam o risco de ficar até mesmo sem o vale-refeição!

Após o início das negociações entre o Sindados e o Sindinfor, as entidades publicaram notas em seus sites mostrando qual o panorama concreto deste ano. Até então, o funcionário da empresa pequena achava que o patrão que o cumprimenta diariamente com um sorriso no rosto não faria essa sacanagem com ele. Quem trabalha num lugar maior achava que a empresa teria maior dificuldade de contratar e reter trabalhadores se aderisse ao corte. Contrariando as expectativas otimistas de alguns profissionais, a diretoria do sindicato patronal, composta por empresas de todos os tamanhos[1], afirmou com todas as letras na sua primeira nota[2] que pleiteia a “flexibilização de normas laborais”, isto é, a retirada de direitos. Se antes vários trabalhadores estavam achando que seus empregadores não cortariam benefícios, esta declaração deve ser suficiente para mostrar a realidade que se desenha para nossa categoria agora.

As empresas de tecnologia da informação estão plenamente dispostas a se utilizar do rebaixamento das leis trabalhistas promovidas nos governos Temer e Bolsonaro, com a contrarreforma trabalhista de 2017[3] e a chamada lei da liberdade econômica[4] deste ano. Segundo o sindicato patronal, a “pauta de ampliação de benefícios laborais” que nossa categoria pediu representa um “contraste óbvio com o panorama jurídico nacional”. Ou seja, para os patrões o momento é de retirar direitos!

Poucos dias depois o sindicato patronal emitiu outra nota[5], justificando a ridícula oferta de 2,25% de reajuste com um suposto cenário de recessão. Segundo estudo do IBGE apresentado por eles, o setor teve queda de 0,2% no primeiro trimestre de 2019.

Essa informação contradiz o que os próprios empresários do setor dizem por aí. As empresas de TI de Minas Gerais sempre se gabam – seja em jornais, TVs, redes sociais, etc – de seus resultados expressivos, do crescimento contínuo, das receitas cada vez maiores e da contratação em ritmo alucinante. O setor de TI está tão aquecido que chegou a criar um nicho do mercado imobiliário apenas para acomodar suas necessidades. Espaços de coworking surgem por toda a Grande BH e cidades do interior tendo estas empresas como principais clientes. O próprio sindicato patronal publica notas regularmente comemorando parcerias e resultados. As empresas realizam eventos com seus funcionários para apresentar números positivos periodicamente, usando os mais diversos índices para pintar para seus trabalhadores um cenário absolutamente otimista. Novos contratos com valores imensos, muitas vezes em dólar, são fechados o tempo todo. Rodadas de investimento acontecem sem parar.

Será que a mídia que veicula suas entrevistas sobre um mercado em expansão constante está sendo enganada por estes empresários que na verdade estariam quebrados? Os sucessos das empresas de TI de Minas Gerais, tão alardeados em palcos de “empreendedorismo” Brasil afora, são mentiras contadas para funcionários e investidores? Aqueles números e siglas com valores em diversas moedas, porcentagens e buzzwords – EBITDA, ARR, break-even, etc – são, na verdade, cortinas de fumaça para esconder um setor que está quebrando?

Algo nessa conta não fecha. Se as empresas querem nos fazer acreditar que somos parte destes resultados maravilhosos, que nos paguem de acordo com o que fizemos para isso. Afinal, sem os trabalhadores que fazem a companhia funcionar, esses números cairiam a zero rapidamente. Nossa categoria vem demonstrando uma mobilização crescente por ser bombardeada com cases de sucesso o tempo todo e quer sua justa parte nisso agora!


  1. Confira a relação de diretores no próprio site da entidade ↩︎

  2. Nota publicada em 23/08/2019 ↩︎

  3. Lei 13.467 de 13 de julho de 2017 ↩︎

  4. Medida Provisória 881 de 2019 e Projeto de Lei de Conversão 17/2019 ↩︎

  5. Nota publicada em 30/08/2019 ↩︎