Antes da pandemia, alguns momentos do dia serviam como marcadores que garantiam um mínimo de normalidade, de rotina. Bater ponto para entrar, revisar o trabalho do dia anterior, botar a mão na massa até meio dia, almoçar com o resto do time em uma pequena aglomeração numa mesa e pagar com o cartão fornecido pela empresa, voltar, continuar o trabalho, bater ponto para sair registrando com precisão a hora em que o trabalho acabava. Na sexta feira, um happy hour – às vezes pago pela empresa, mas geralmente do nosso próprio bolso – também era um marcador de que a semana acabava e teríamos dois dias para nós mesmos.
Claro, isso tudo em um cenário ideal. Sabemos bem que sempre houve pressão para marcar horas a menos, o vale-refeição nem sempre é suficiente para o mês todo nos bairros caros onde as empresas se instalam, a cerveja por conta do chefe era acompanhada de mais trabalho. À noite e no fim de semana era de bom tom comparecer em eventos relacionados ao trabalho, ainda que não nos adicionasse muita coisa.

Ainda assim, mesmo esse mínimo de rotina e de marcações nos garantiu, além da separação entre vida pessoal e profissional, que os direitos garantidos tanto na lei quanto na convenção coletiva fossem respeitados. Os acontecimentos de 2020 mostram que esses direitos muitas vezes eram respeitados apenas por obrigação.
Muitas das empresas estão aproveitando o “novo normal” para abusar ainda mais dos seus trabalhadores, com jornadas extenuantes e o não pagamento de vários valores que são devidos. As reclamações de horas-extras que não são registradas são mais presentes do que nunca, levando o Sindados a receber uma enxurrada de reclamações de trabalhadores das mais diversas empresas. A última nota do sindicato patronal sobre a negociação da CCT é quase uma admissão de culpa, onde a entidade afirma que esses descumprimentos seriam “inevitáveis”.

O que os patrões chamam, em outra nota, de “estratégia aleatória e frágil de intimidação moral sem lastro” nada mais é do que a resposta às suas próprias violações repetidas e insistentes dos direitos mínimos e da dignidade dos empregados. Dizem que a qualidade de um sindicato pode ser medida pelas reclamações dos patrões. Neste caso, as ações do Sindados o colocam num excelente patamar para a representação dos trabalhadores.

Alguns empregadores vão ainda mais longe, e também estão tentando cortar o pagamento do vale-refeição com a justificativa de que não é preciso mais se alimentar fora de casa – como se isso fizesse com que o benefício não fosse mais obrigatório, principalmente em vista de uma realidade de jornadas tão intensas que os trabalhadores não tem sequer tempo de preparar sua refeição, recorrendo a entregas caríssimas nos aplicativos. Tal prática além de flagrantemente ilegal é completamente imoral, cruel e mesquinha.

Enquanto as empresas, através do Sindinfor, tentam se apresentar como vítimas de um sindicato que supostamente age com “viés ideológico”, elas próprias vitimizam a categoria para embolsar lucros recordes sustentados por todo tipo de abuso. O sindicato patronal, perfeitamente alinhado com os governos estadual e federal, trata os funcionários como meros insumos para seus produtos, como custos a serem cortados assim que possível.

A Unidade Classista e o Sindados seguirão firmes na denúncia dos desrespeitos aos direitos mais básicos. Não vamos nos dobrar à estratégia suja dos patrões para acabar com o mínimo de dignidade que ainda nos resta nem vamos nos intimidar com a declaração de guerra feita pelas empresas contra os trabalhadores. A resposta virá à altura, e a bomba econômica que os empresários estão nos empurrando será jogada de volta com muito mais força no colo deles!