Foto por Patrick Amoy

Programador faz parte da classe trabalhadora? Essa pergunta foi feita no Twitter por um de nossos seguidores, o qual não citaremos explicitamente, mas agradecemos o questionamento que pode servir para muitos outros trabalhadores de nossa categoria (que sabemos, abrange outras áreas além da programação). Resposta rápida: sim. Mas como nas Ciências Humanas há espaço muito grande para subjetividades e reflexões, vamos trazer algumas delas a seguir.

Burguesia e proletariado são classes sociais antagônicas, embora aquele dependa muito mais deste porque o objetivo do burguês é sempre extrair mais-valia (riqueza gerada pelo trabalhador através da sua força de trabalho menos custos de manutenção da força de trabalho) e dos trabalhadores é lutar por mais direitos, melhores condições de trabalho, em suma, diminuir a extração de mais-valia.

Portanto, se um trabalhador vende a sua força de trabalho para um patrão, sim, ele é um proletário, o que vale para um trabalhador contratado, independente do regime, se é carteira assinada ou PJ. O trabalhador do serviço público também é explorado, mas Marx faz uma definição de mais valia complementar, ou seja, ele não vende a sua força de trabalho para um burguês, mas o seu trabalho é fundamental para o fluxo do sistema capitalista.

Exploremos melhor a situação dos PJs. Uma pessoa da área de TI que está na modalidade PJ pode ou não ser da classe trabalhadora, ou melhor, depende. Um PJ é um trabalhador quando ele trabalha para uma empresa que, para burlar as leis trabalhistas, exige esse tipo de contratação. Outra situação é quando um PJ é um trabalhador autônomo prestador de serviços e vende a força de trabalho para todos aqueles que contratam seus serviços, sendo o rendimento mensal resultante dos contratos é seu “salário”. Mas quando uma ou mais pessoas fundam uma empresa e contratam trabalhadores já não são mais membros da classe trabalhadora mas burgueses, talvez um pequeno burguês se for um pequeno negócio ou um grande burguês se for Mark Zuckerberg, que inclusive já foi programador. A grande burguesia, portanto, tem o poder de determinar resultados eleitorais, votações nos órgãos dos governos, etc, devido ao seu grande poder econômico.

Em relação aos trabalhadores, existem alguns conceitos que precisam ser entendidos que são: classe em si e classe para si. Esses termos de origem marxista são importantes para vermos onde estamos enquanto classe trabalhadora de TI: classe em si são todos os trabalhadores que tem uma relação comum aos meios de produção, ou seja, trabalhadores de TI, não obstante as relações de trabalho, mas que sejam explorados e o fruto de seu trabalho haja mais-valia para o patrão, fazem parte da classe trabalhadora. Ora se estivéssemos organizados e tivéssemos uma linha de atuação unitária, seria melhor para conquistar direitos, não? Aí que vem o termo classe para si, ou seja, além de ser trabalhador, é necessário que ele se reconheça como tal e se organize de forma coletiva, seja em sindicatos, correntes classistas, etc.

Sabendo que a burguesia usa de seu poder econômico para difundir suas ideias, entre elas, a falácia do falso empreendedorismo, a qual assevera que um trabalhador de TI com salário alto ou um trabalhador PJ amanhã poderá ser um dono de uma grande multinacional (que faz parte da alienação do trabalho) é que estamos hoje divididos. Afinal, se considerarmos que trabalhamos 8 horas por dia mais horas extras pagas por pizzas e Cocas Colas além de horas estudo fora do horário de trabalho resultando em estados psicológicos médios e graves, talvez sejam motivos mais que necessários para nos reconhecer como classe e nos organizarmos por mais direitos. A Unidade Classista de TI em MG (e em outros estados também) tem exercido um esforço enorme nesse sentido, seja nas formações políticas, campanhas salariais e discussões sobre os problemas de nossa categoria. Vem com a gente que a única coisa que temos a perder são os nossos grilhões!