Na internet não existe sistema seguro. Com dedicação e disposição, qualquer servidor ou estação pode ser invadido. Exemplos não faltam, e mesmo em ambientes onde atuam os melhores profissionais erros continuam acontendo, expondo informações sensíveis de uma infinidade de usuários, clientes e afins.

Neste mês um vazamento de dados cadastrais e financeiros de quase 50 mil clientes da operadora de celulares Tim foi publicado na imprensa. Segundo o Tecmundo[1] os dados foram obtidos através de servidores desprotegidos da empresa, cujas APIs estavam publicamente acessíveis. A companhia não negou o vazamento, apenas questionou a quantidade de clientes comprometidos - ou seja, o problema realmente aconteceu. No ano passado problema semelhante ocorreu no Banco Inter[2], um banco digital bastante popular principalmente entre os mais jovens. Cerca de 100 mil clientes tiveram seus dados completamente vazados, em 40GB de arquivos que continham informações cadastrais, senhas e assinaturas, scans de cheques e muito mais coisas. O vazamento foi noticiado na imprensa três dias depois do banco começar a negociar suas ações na bolsa de valores, impactando pesadamente seu valor no mercado e comprometendo a imagem da instituição. A causa, segundo o próprio banco, foi uma “pessoa autorizada”[3]. Rumores e conversas de corredor na época apontavam que um funcionário havia deixado seu acesso desprotegido e o invasor teria se aproveitado disso em silêncio por meses enquanto coletava os dados calmamente, mas estas informações jamais foram confirmadas.

Tanto a Tim quanto o Banco Inter são empresas com um orçamento gigantesco para a área de tecnologia e segurança, e ainda assim tiveram suas informações comprometidas e vazadas em larguíssima escala. Procedimentos robustos operados por profissionais de alto escalão ainda assim foram superados por erros que qualquer trabalhador do setor, por mais experiente que seja, está suscetível a cometer. São companhias cuja própria existência depende da manutenção desse sigilo e ainda assim foram afetados por falhas primárias e gravíssimas.

Se empresas assim também passam por esse tipo de problema, o quão seguro deve ser um novo aplicativo de paquera focado em um público de esquerda, conhecido como PTinder?

A ideia, anunciada pela jornalista Monica Bergamo na Folha de São Paulo,[4] ainda não saiu do papel. O que parecia ser uma brincadeira da advogada Mônica Goretti Nagime vem ganhando forma, primeiro com um perfil no Instagram e depois um aplicativo propriamente dito. Na notícia, diz-se o seguinte:

A ideia surgiu depois que um amigo ficou na fossa por ter levado um fora.
Mônica resolveu ajudá-lo divulgando uma foto dele em suas redes. Disse que
era advogado, diretor de escola técnica, bom papo e “de esquerda”. “Por
incrível que pareça, foi o que mais atraiu as mulheres”, diz ela.

A página terá ainda um quadro que se chamará “Partidão de Esquerda”, com
pequenas entrevistas com pessoas “solteiras ou em um relacionamento aberto ou
confuso” que estejam buscando um novo amor.

Desenha-se, portanto uma iniciativa de construir um imenso banco de dados de militantes e simpatizantes de esquerda devidamente segmentado por gênero, localidade, preferências, etc. Algo que caindo em mãos erradas pode causar um estrago imenso. Numa era de vigilância constante, a obviedade do perigo envolvido nessa ideia deveria saltar aos olhos! Além disso há uma série de implicações igualmente perigosas que não requerem tanta sofisticação: da mesma forma que aplicativos voltados para o público LGBT já são alvo de perfis falsos operados por fascistas, que marcam encontros para agredir, estuprar e até matar os usuários dos aplicativos, o tal PTinder teria o mesmo problema. Não se trata apenas da coleta de dados em massa como já acontece em redes sociais o tempo inteiro, mas da segurança com a qual estes dados serão armazenados e a capacidade de proteger essa base de dados de ataques, invasões e vazamentos por negligência e amadorismo.

A entusiasmada recepção que essa ideia teve nas redes sociais é assustadora. Limitações claras, a nível teórico e prático, ficam escancaradas com isso. A chamada “esquerda festiva” cada vez mais sai do meme e vai para a vida real, onde o dito “progressismo” se torna um clubinho e não uma forma de pensar e agir na política e na transformação do mundo. O engajamento político centrado em selfies e redes sociais se mostra como o horizonte máximo de muitas pessoas que reivindicam um suposto pensamento de esquerda. Fica escancarada a falta de familiaridade de certos setores com a luta concreta, onde as questões de segurança individual e coletiva são levadas a sério – apenas quem não precisa se preocupar com sua autopreservação vê com bons olhos iniciativas desse tipo. Como disse André Brandão[5]:

Tem se tornado comum a adoção de uma identidade “soviética”, ou
“revolucionária”, como forma de demonstrar alguma radicalidade política.

É urgente que a esquerda brasileira deixe de ser um filtro de foto de perfil e volte a ser um coletivo combativo, anticapitalista, revolucionário. Nosso objetivo deve ser a construção de uma nova sociedade, não apenas uns beijos no fim de semana com quem acha o fascismo feio, bobo e cara-de-mamão. Até porque se a meta é transar, saibam que o período socialista do leste europeu tem entre suas principais marcas um aumento qualitativo na prática sexual e afetiva de seus cidadãos, proporcionado justamente pelo modo de viver que rompeu com as pressões do capitalismo rumo a uma sociedade justa e igualitária, tanto na organização da produção quanto na promoção da igualdade de gênero.


  1. Tecmundo: TIM Negocia vazou dados pessoais e dívidas de milhares de clientes ↩︎

  2. Tecmundo: Banco Inter é extorquido e dados de clientes são expostos; invasão é negada ↩︎

  3. UOL: Banco Inter confirma vazamento de dados e culpa "pessoa autorizada" ↩︎

  4. Folha de São Paulo: Advogada cria PTinder para namoro de pessoas de esquerda ↩︎

  5. União da Juventude Comunista: Marxismo-leninismo: identidade ou práxis? ↩︎