Os eventos organizados pela comunidade de trabalhadores de TI estão finalmente se atentando para a importância da diversidade, tanto no palco quanto na plateia. Nos últimos dois anos movimentos coletivos e figuras individuais conseguiram cravar seu espaço nas conferências e meetups. Inicialmente chamadas apenas a falar de diversidade, pessoas que não cabem na restritiva caixinha dos homens brancos, cisgênero e heterossexuais conseguiram ser ouvidas também nos assuntos técnicos, se mostrando referências nas mais diversas tecnologias. Obviamente ainda há muito a percorrer, os melhores exemplos ainda são exceção. Mas o caminho parece estar finalmente aberto e é uma questão de tempo e persistência para que essa necessária mudança de ares se aprofunde, se generalize e se consolide.

Em se tratando do povo pobre brasileiro, há um componente racial muito bem marcado. Não é preciso ser um demógrafo meticuloso para ver que a pobreza no nosso país tem cor, como consequência da marginalização histórica a que negros e indígenas foram submetidos desde que a terra que hoje chamamos de Brasil foi tomada pelos invasores portugueses na alvorada do que viria a ser o capitalismo europeu. Ingressar no mercado de trabalho de TI apresenta uma barreira socioeconômica muito concreta. Estudar a tecnologia da informação requer acesso a computadores, algo que boa parte da população brasileira ainda não tem. Apesar do acesso à internet beirar os 70%, os smartphones com planos limitados são o principal ponto de acesso.

A política de cotas raciais implantada nas universidades brasileiras, ainda que muito aquém do necessário, ajudou a mudar um pouco o cenário. Mais pessoas negras e indígenas tiveram acesso ao ensino superior, ingressando em cursos de ciência da computação, engenharia, estatística e afins – apesar da falta de assistência estudantil, que se apresentava como mais uma dificuldade a ser vencida, impedir muitas de sair com o diploma. A lei federal de 2012 começa a mostrar seus resultados, com uma geração de formandos que ingressou no mercado de trabalho nos últimos três ou quatro anos muito mais diversa do que as anteriores. Profissionais qualificados agora enfrentam novas barreiras nos processos seletivos tomados por gerentes de RH antiquados e racistas. Em vários casos as empresas que tem políticas de inclusão o fazem de forma muito mais publicitária do que prática, recorrendo às velhas desculpas para mascarar a discriminação durante a contratação.

Toda a carreira das pessoas negras e indígenas em TI é um reflexo do que acontece nos outros setores da economia. Profissionais extremamente competentes são colocados de lado em favor de outros nem tão bons mas com melhores contatos. Há casos em que pessoas negras plenamente qualificadas para a atividade-fim da empresa são chamadas para posições de serviços gerais, enquanto na mesma companhia os times formados por pessoas brancas recrutados por indicação e não por competência naufragam projetos e veem a rotatividade disparar. Vez ou outra, empresas maiores e mais midiáticas formam comitês de diversidade para supostamente corrigir estas distorções, mas as direções quase sempre ignoram as recomendações destes grupos de trabalho com desculpas sobre orçamento, cultura, prazos, etc.

Num ambiente ainda tomado majoritariamente por homens brancos, muitos dos quais bebem de ideologias reacionárias e em quem hábitos vindos dos esgotos anônimos da internet seguem encontrando eco, o dia a dia também é um desafio para profissionais que não fazem parte deste grupo. Além das dificuldades na carreira, o racismo também se manifesta entre os pares, de formas mais ou menos abertas a depender do momento e do ambiente. Apesar da injúria racial e do racismo serem crimes previstos em lei, piadas e comentários discriminatórios seguem sendo feitos de forma impune nas equipes de TI. Pessoas negras e indígenas, quase sempre minoria numérica, são excluídas do convívio diário e forçadas a encontrar um espaço seguro em seus próprios grupos, num processo de formação de guetos imposto pelos colegas brancos, algo tão enraizado e naturalizado que sequer é questionado e se perpetua até mesmo involuntariamente, se consolidando de forma estrutural.

O próprio desempenho das tarefas profissionais é afetado pelas relações desiguais de raça no ambiente de trabalho. O resultado entregue pelo profissional negro é quase sempre submetido a um escrutínio mais rigoroso, a quem o direito de errar é sempre negado com mais intensidade e as críticas chegam com mais peso. Com isso, os casos de assédio moral, jornada excessiva com horas extras não remuneradas, desvio de função e outros abusos no local de trabalho são mais frequente entre estes do que com os colegas brancos.

O cenário de racismo no setor de TI é, como afirmamos acima, reflexo do que ocorre na totalidade da sociedade. As relações de exploração e extermínio racial que vemos no século XXI são reflexo das ideias que surgem com a expansão mercantilista e posteriormente capitalista da Europa desde o século XV, quando novas formas de produção se apresentaram e a busca por mão-de-obra de baixo custo e abundância de recursos se fez necessária, levando à invasão das Américas, da África e da Ásia. A opressão contra os povos de origem colonizada encontra sua raiz no processo capitalista de acumulação e exploração, e portanto não pode ser interrompida sem que o capitalismo também seja superada. O caminho para o fim definitivo do racismo é o socialismo, como bem entenderam os líderes revolucionários de países de África e Ásia que se levantaram com a bandeira do marxismo-leninismo contra a exploração colonial.

O Brasil é um país da periferia do capitalismo, cuja exploração continuada é garantida com o derramamento de sangue de negros, ciganos, indígenas e asiáticos que são comumente tratados como sub-cidadãos. Apesar de ocuparem mais da metade do total da população brasileira, os negros, indígenas e demais não-brancos são alvos muito mais visados pela violência capitalista que se expressa tanto pela atuação sanguinária da polícia na cidade quanto pela tolerância da pistolagem clandestina no campo. Várias leis passadas durante o suposto auge da democracia brasileira, como a Lei de Drogas de 2006 e a Lei Antiterrorismo de 2016, ajudaram a disparar o encarceramento em massa da juventude negra e pobre.

O centro do capitalismo também produz sua própria barbárie racial, como vimos recentemente com o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. As forças de repressão do Estado matam brutalmente o povo negro lá e aqui, assim como fizeram com o adolescente João Pedro Mattos Pinho durante operação policial no Rio de Janeiro. O descaso com a vida negra tem apoio também nos setores civis da alta sociedade burguesa, como exemplificado na morte do menino Miguel Otávio abandonado pela patroa de sua mãe num elevador. Todos eles vítimas do racismo institucional, do supremacismo branco da nossa sociedade capitalista ocidental.

Nunca antes na história desse país se prendeu e se torturou tanto, nem mesmo durante a ditadura militar de 1964-1985. Essa brutalidade é necessária para que os capitalistas sigam lucrando livremente, sem oposição firme e sem questionamento. Apenas com o fim do sistema de exploração econômica será possível abrir caminho para a emancipação dos vários povos que compõem nosso país. É com o objetivo de edificar uma nova ordem social, que não seja fincada na acumulação de riqueza por alguns poucos através do roubo do trabalho de outros muitos, que a Unidade Classista, o Coletivo Negro Minervino de Oliveira e o Partido Comunista Brasileiro organizam a classe trabalhadora. Se você entende a necessidade de se engajar para mudar esta realidade rumo a um mundo mais justo e humano, entre em contato conosco e construa a luta!