Na indústria 4.0 o desempenho do profissional é um ponto crucial. Cada vez mais as empresas entendem que a T.I. não é um custo, e sim um investimento que é altamente rentável, de curto prazo com um retorno praticamente imediato e completamente mensurável. Logo, os patrões seguem se aproveitando que o profissional de T.I. é extremamente dinâmico, sendo capaz de atuar em praticamente todos os setores da empresa, melhorando a forma que os setores trabalham, oferecendo controle, inovação e correção de processos.

Muitos parecem esquecer que esse trabalhador também tem uma vida pessoal: além das cobranças dentro da empresa, tem casa, família, amigos, diversos relacionamentos onde ele tem que estar presente e também um tempo para si próprio. Porém, num país onde a classe trabalhadora vem sofrendo uma série de gigantescas perdas trabalhistas, o profissional passa a se sentir ameaçado, aceitando condições desgastantes e volumes cada vez maiores de trabalho, deixando o lazer e sua vida de lado para atender o que é solicitado.

Isso tem seu preço. O chamado burnout é cada vez mais presente entre trabalhadores do setor de T.I. Nós e nossos colegas de profissão, nos mais diversos segmentos do mercado, claramente são afetados. No início, aparenta ser somente um estresse passageiro, ou então momentos de improdutividade – os quais fomos levados a chamar de procrastinação. A cada dia achamos que só “acordamos pelo lado errado da cama”, até chegar o momento onde não temos a menor vontade de trabalhar. Tristes e abatidos o tempo todo e ainda tendo que lidar com a família que muitas vezes não vê essa mudança – uma mudança gradual de comportamento, onde nem mesmo o trabalhador é capaz de ver como ele chegou a esse ponto.

{% include figure.html img_url="full-burnout-meetup.jpg" description="Você mora na região de BH e quer conversar sobre o assunto? A Unidade Classista está organizando um meetup para este sábado, 23 de novembro, na sede do Sindados - rua David Campista 150, Floresta - às 15h com palestra do psicólogo Rafael Costa e roda de conversa!" %}

E o que é o burnout, afinal de contas? Definido pelo psicólogo Herbert J.Freudenberger como “um estado de esgotamento físico e mental cuja causa estáintimamente ligada à vida profissional”, a síndrome de burnout é um distúrbiopsíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mentalintenso. Ele é caracterizado por desmotivação, emoções contidas, demonstração deimpotência e desesperança, perda da motivação, distanciamento, resultando em umquadro onde o indivíduo é levado a crer que não vale a pena viver.

E o quão perto o burnout está de nós?

Os exemplos, infelizmente, são bastante pessoais, mais palpáveis do que gostaria. No meu caso, com ajuda consegui “parar” no meio do caminho, freando e revertendo o processo através de ajuda psicológica profissional e do apoio de pessoas próximas, além da atividade física e da regulação do sono. Por outro lado, um amigo próximo não teve a mesma sorte. Excelente profissional, conheci ainda no meu período de faculdade: tivemos a oportunidade de trabalhar juntos, fui padrinho de seu casamento, recebi a alguns anos atrás a feliz notícia que sua esposa estava grávida e que ele ia ser pai. Nesse meio-tempo, nossos caminhos profissionais e pessoais se distanciaram. Mantínhamos contato ainda via internet, como muito acontece hoje em dia, mas nada frequente. Até um dia receber pelo seu irmão a notícia de uma quase tragédia envolvendo sua medicação para dormir, mesmo sem histórico algum de uso de substâncias – nem mesmo álcool. Felizmente, naquela ocasião havia sido apenas um grande susto em todos nós, mas também um recado de que algo muito errado estava ocorrendo na vida dele. Novamente em contato com ele, perguntei o que havia acontecido. Todo o caso que o levou a isso foi profissional: sobrecarga de tarefas, de responsabilidades, de prazos impossíveis e ainda se desdobrando para não negligenciar a família. Entretanto, ao longo de um semestre ele mesmo notou uma mudança, que a princípio achou ser apenas estresse. Os problemas foram acumulando, os dias ruins cada vez mais frequentes, até o momento que ele procurou um pronto-atendimento: não estava conseguindo dormir havia dias. Recebeu a prescrição de um remédio para dormir e a indicação de buscar um psicólogo. Sua vida seguiu com as demandas profissionais cada vez maiores, a pressão no trabalho aumentando, até o momento em que ele precisou de uma dose muito maior para tentar ter um mínimo de sono.

O estresse do trabalho quase o fez perder a vida.

Após somente três dias já precisou voltar ao trabalho. Com a recomendação de um psiquiatra, teve ainda mais uma mísera semana de descanso. A correria parece não mudar: seu telefone toca, incessantemente, com demandas supostamente urgentes dos colegas e superiores até mesmo na hora do almoço.

Não podemos deixar que nossos trabalhos drenem tanto de seres humanos. Precisamos de jornadas mais humanas, prazos reais, equipes dimensionadas adequadamente, gerentes que saibam ouvir e corresponder às demandas dos trabalhadores. Se as empresas não estão dispostas a fazer isso por conta dos seus lucros, somente nossa mobilização coletiva poderá garantir melhores condições para nós e nossos colegas.